sexta-feira, 26 de junho de 2009

No Presente


Como era de costume, ao nascer, Arthur ganhou um lindo baú de presente. De madeira lisa, de cor clara, sem nenhum detalhe talhado, apenas com um leve toque de verniz que dava a ele um tom inigualável de objeto novo, preparado com muito cuidado. Junto, o menino ganhou a chave que abriria esse baú.
Assim que tomou consciência de sua existência, Arthur pegou a chave e, com a ajuda de seus pais, abriu o presente que tinha recebido. Nada havia dentro dele. Os pais quiseram mantê-lo aberto, mas o menino preferiu fechá-lo novamente e perguntar aos pais o porquê do baú. “É para guardar o que você receber na vida que seja realmente especial”, disse o pai. “O que for tão bom de lembrar, que faça seu coração doer!”, disse a mãe.
Com o passar dos anos, o menino começou a seguir o que seus pais lhe disseram, mesmo sem entender como uma coisa boa poderia causar dor. Guardava aquilo que achava de importante, mas, principalmente, guardava aquilo que lhe era dado por pessoas importantes. Começou a perceber que muito das poucas coisas que havia no baú tinha sido dado pelos pais, avós e pela professora do colégio. Depois, conforme o número de objetos ia aumentando, alguns amigos da escola também começaram a doar.
Por volta dos quinze anos, Arthur percebeu que uma das pessoas com que ele convivia era mais interessante que as outras, tinha algo de especial. Ele queria mostrar pra ela o que achava e, depois de muito pensar, resolveu fazer isso dando um presente: uma das coisas que havia no baú. Não poderia haver nenhuma prova maior de que ela era especial. Chamou-a num cantinho e deu o presente. Os segundos seguintes pareciam uma eternidade... Ela aceitou o presente e agradeceu, dando em troca um sorriso. O menino rapidamente guardou o sorriso no baú, antes que se perdesse. Assim ele aprendeu que também era bom trocar, e não só, receber. E percebeu que às vezes as pessoas não lhe dão nada em troca, mas mesmo assim é bom presenteá-las. E assim fez, por muito tempo. Até que, uma vez, ao presentear a menina, ela não só não quis dar nada em troca, como também não aceitou o que ele havia levado pra ela. Deixara em cima de um banco e fora embora. Uma corrente de tristeza cortou o coração do menino, que pegou de volta o presente e levou para casa, para que pudesse guardá-lo novamente no baú. Ao abri-lo, percebeu que também o banco em que ela havia deixado o presente estava dentro do baú. E foi aí que o menino percebeu que não há como controlar totalmente aquilo que se guarda.
A vida foi seguindo, Arthur, deixando de ser um menino e o baú, ficando cada vez mais cheio. No decorrer da vida, ele conheceu várias outras sensações, inclusive a “dor de algo bom” de que sua mãe lhe falara. Doou, recebeu, trocou. Conseguiu, com muito esforço, retirar alguns objetos que não lhe traziam boas lembranças, mas para outros não teve jeito. De vez em quando ele pegava uns que estavam bem lá no fundo e olhava, só pra ter as mesmas sensações novamente.
Quando chegou perto dos 80 anos, ele resolveu que era hora de chamar alguns meninos, que deveriam ter as mesmas expectativas e dúvidas que ele, quando estava nessa idade, para mostrá-los seu baú. Notou que não mexia nele há uns anos e se surpreendeu quando olhou para ele. A madeira estava escura e não havia mais sinal do verniz. Algumas marcas modificavam muito a imagem que ele tinha do presente que ganhou ao nascer, umas muito profundas, inclusive. Ele tirou a poeira que cobria a tampa e abriu para mostrar aos meninos. Contou cada detalhe de cada objeto que havia lá dentro e viveu de novo todas as sensações presentes ali.
Ao terminar, percebeu que somente um menino ainda estava prestando atenção, mas não parecia ter apreciado ou, sequer, entendido tudo o que ele havia dito. Ele deu de presente uma bola a cada um dos meninos e sentou-se no sofá. “Acho que as crianças de hoje não gostam mais daquelas coisas que foram importantes pra mim. Elas não tiveram nenhum significado para aqueles meninos...” – pensou. E foi aí que ele percebeu que, por mais importante que fosse tudo o que ele havia guardado no baú por anos, as sensações são intransferíveis. E deixou que os meninos usassem seu próprio baú da maneira que quisessem. Um dia, tudo ia fazer sentido para eles e, quem sabe, eles não guardariam uma imagem daquele baú tão marcado pelo tempo, só pra recordação...

5 comentários:

  1. Aiiiiiii que legal... Amei da primeira leitura... amei muito da vigesima sétima e tive de comentar!!!
    =)
    Beijos!
    Adoro vc!!

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  2. Tatá, querida!

    Como é bom ler os seus textos...

    A cada palavrinha, cada frase, parecia que o "meu baú" ia se abrindo, lembrei de tantas coisas...

    Espero que no seu baú tenha sempre coisas tão boas de lembrar, que façam seu coração doer!

    Amo-te!

    Bjinhos
    :)

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  3. Esse texto é muito lindo!
    Guardei mais uma pessoa, mais um carinho, mais uma amizade dentro do meu baú por esses dias, você! (Só não pode ficar se achando hein! kkk)
    Um beeijo, Mari!

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  4. Esse vai pro MEU baú, tá?

    Tanto na prosa quanto no verso, vc escreve bem sabia?

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